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Suzana Herculano-Houzel

A vantagem humana

O livro “A vantagem humana” (Companhia das Letras; 352 páginas; 42 reais) da pesquisadora brasileira Suzana Herculano-Houzel nos leva a uma jornada de exploração do cérebro humano à luz da evolução. A cientista apresenta quais hipóteses sustentam hoje a supremacia cognitiva humana. Nesse livro conhecemos a história por trás de uma técnica inovadora desenvolvida pela Suzana Houzel, além de sua paciência e coragem para confrontar algumas teses de nomes consagrados da neurociência.

Onde estaria o diferencial do poder cerebral do homo sapiens? Sua quantidade de neurônios, índice de encefalização, neuroanatomia, são tantas hipóteses possíveis e é nessa viagem que a autora nos leva, com muita ciência, pesquisa e humor inteligente.

O livro órbita o questionamento do porquê nosso encéfalo não sendo o maior em tamanho, nem em quantidade absoluta de neurônios, pode ser o mais capaz cognitivamente? Quando o assunto é capacidade e processamento, com certeza o ser humano está no topo da lista de excepcionalidade. Sua potência cognitiva, capacidade de desenhar futuro, planejar e traçar estratégias coloca-o como dominante no planeta terra. O antropoceno, período caracterizado pelo domínio quase que total do planeta pelo homo sapiens evidencia essa potência que é o ser humano.

Nas últimas décadas a neurociência levantou diversas hipóteses para explicar esse poder cognitivo, porém, até meados de 2004 ninguém sabia ao certo a quantidade de neurônios no encéfalo humano, assim como de outros animais. O uso da estereologia não trazia uma resposta precisa já que a densidade neuronal muda em diferentes regiões do encéfalo. Por isso que analisar mesmo que sistematicamente pedaços de cérebro não resolvia o problema.

Diante desse desafio técnico a cientista Suzana Hercula-Houzel teve um insight: transformar o cérebro em sopa não resolveria o problema? A partir dessa ideia a pesquisadora trabalhou na técnica de liquidificar um cérebro. Endurecê-lo, depois com um detergente especial liquidificá-lo, e então homogeneizar a mistura e fazer a contagem de células neuronais através de uma proteína reativa. A ideia era ousada e exigia uma nova metodologia, na qual a Suzana e sua equipe se debruçaram e desenvolveram. A contagem trouxe um poder de análise imenso e várias teorias entraram na mira dos pesquisadores. O velho número de 100 bilhões de neurônios para o encéfalo humano caiu, estabelecido hoje em torno de 89 bilhões de células. Os números também trouxeram um espanto para a comunidade cientifica, uma vez que cérebros grandes nem sempre correspondiam proporcionalmente em volume de neurônios (dois encéfalos de tamanho semelhantes não possuíam a mesma quantidade de neurônios, ex: 48,2 gr capivara “306 M”, 48,3 gr “1,7B” macaca radiata).

O livro traz uma longa série de gráficos e dados de pesquisa. A autora apresenta em detalhes a tese da vantagem humana estar no volume de neurônios no córtex e o fato do sapiens cozinhar, aumentando a oferta de energia, permitindo assim a manutenção de um cérebro tão custoso metabolicamente. Para entender melhor a hipótese do cozimento leia a resenha “Pegando Fogo” do autor Richard Wrangham (citado como referência no livro da Suzana).

Top 5 aprendizados

  1. A melhor maneira de buscar o entendimento da natureza é pela luz da evolução e adaptação da vida.
  2. Na natureza nem tudo parece ser o que é. Ciência de qualidade é fundamental para transitar bem.
  3. Pra se fazer ciência de qualidade é preciso coragem, ousadia e criatividade.
  4. O cérebro humano é uma jóia da evolução.
  5. O sapiens é o único animal que cozinha e isso nos coloca num patamar energético/metabólico sem igual.
Lucas Conchetto - 2020