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Steven Gundry

O paradoxo dos vegetais

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Todo ser vivo tem um imperativo em comum: continuar existindo. Cada animal, cada ser que existe nesse planeta luta continuamente por sua sobrevivência. Cada mecanismo, estratégia, dispositivo de defesa e manutenção da vida gira em torno desse desejo de potência. Todo ser vivo quer continuar existindo e talvez seu último grito, seu desejo por eternidade seja a reprodução, quando uma vida passa seus genes adiante e deixa um pedaço de si para a posteridade.  Com o ser humano não é diferente. Somos herança genética de seres que passaram por esse planeta desde tempos imemoriais e continuamos a jornada, passando genes adiante, lutando pela vida. 

Estima-se que as plantas surgiram há cerca de 450 milhões de anos atrás, muito antes dos insetos que chegaram por volta de 90 milhões de anos. Até então as plantas viviam em paz, não precisavam fugir, se esconder ou lutar. Podiam se desenvolver e crescer sem nenhuma preocupação; viviam literalmente no jardim do éden. Mas com a chegada dos insetos e outros animais a guerra começou, as plantas foram ameaçadas, sua existência estava em jogo, logo evoluíram com milhares de armas e estratégias contra seus predadores, a luta pela preservação ganhava outra dimensão.

As plantas desenvolveram novos poderes e armas para lutar contra seus predadores: fitatos, lectinas e inibidores de tripsina por exemplo. Fitato, é um antinutriente que impede a absorção de minerais; inibidores de tripsina atrapalham o processo das enzimas digestivas; e as lectinas, projetadas para interromper a comunicação celular. A questão chave do livro são as lectinas. O autor apresenta outras linhas de defesa das plantas, mas é nas lectinas e seus efeitos que o dr. Steven Gundry se debruça.  

Nossos ancestrais não sofriam tanto quanto nós com as lectinas, seu consumo de amidos resistentes e proteína animal excluía quase que completamente vegetais e grãos que representavam risco à saúde e que hoje são comuns na dieta moderna. Foi com a revolução agrícola há cerca de 10 mil anos que nossos antepassados começaram o cultivo e consumo de grãos, sementes e alguns vegetais ricos em lectinas. Por que nossos ancestrais continuaram comendo esses alimentos mesmo tendo suas vidas encurtadas? Isso não é contra evolutivo? Se você pensar que os grãos permitiram engorda e um aumento significativo da densidade populacional, o objetivo de reprodução, passar seus genes adiante, acontecia, ou seja, o projeto humano estava bem sucedido, mesmo que a expectativa de vida fosse curta, a chance de deixar um herdeiro era grande. 

A semente ou grão é o filho, é o legado de uma planta, é sua aposta para a posteridade, por isso uma semente é munida de todo mecanismo possível de sobrevivência. Suas estratégias são muitas, elas passam intactas pela digestão, isso quando não provocam diarréias, cólicas e até mesmo toxicidade através do seu revestimento. Comer grãos é ingerir uma bomba inteligente, até pior que o próprio vegetal em muitos casos. Um problema comum relacionado às lectinas são as fissuras na parede do intestino, conhecido como síndrome do intestino permeável.

Os chamados grãos integrais têm todas essas substâncias de defesa na casca, no folhelho e no farelo. Por isso o autor, dr. Steven Gundry afirma que “grãos integrais saudáveis” é uma ideia super equivocada.

Cientistas estavam curiosos para saber se uma planta teria algum nível de consciência se algum predador estava comendo suas folhas, simularam então em laboratório a vibração da mordida da lagarta na folha da arabeta (arabidopsis thaliana), uma espécie de repolho. A planta respondeu às vibrações e aumentou a produção de óleos de mostarda tóxico, transportando-os para as folhas. Quando os pesquisadores produziram outras vibrações como o vento por exemplo, a planta não respondeu de forma agressiva. 

Mas afinal o que são as lectinas? São proteínas grandes capazes de se ligar à carboidratos em especial a polissacarídeos. Essa ligação acontece dentro do sistema digestório do predador. Conhecidas como “proteínas pegajosas”  elas causam interrupções, inflamação e outras reações tóxicas. Quando se ligam por exemplo ao ácido siálico, um nervo é incapaz de se comunicar com outro, causando dores, reações alérgicas entre muitos outros efeitos. 

As lectinas foram descobertas em 1884 através de uma pesquisa sobre tipos sanguíneos. A lectina descoberta foi o famoso e infame glúten. 

Plantas com lectinas têm propriedades boas e ruins. Algumas pessoas têm maior tolerância a lectinas, mas no geral, todos têm um grau de reação alérgica. Contudo, a saúde está intimamente relacionada à qualidade do revestimento intestinal, ao microbioma e as instruções passadas para o sistema imunológico.

Quando as lectinas atravessam a parede intestinal o sistema imune tem uma reação intensa de defesa e também pelas lectinas terem um alto grau de mimetismo molecular, muitas vezes o sistema atinge as próprias células, afinal, essa é a estratégia da planta. Criar um mal estar, má digestão, dores, confusão mental, incômodos intensos no seu predador, para que ele não volte ameaçar sua sobrevivência e de seus filhos (grãos e sementes).

As lectinas provocam a permeabilidade intestinal, substâncias que não deveriam passar pela parede do intestino entram para a corrente sanguínea e provocam diversos distúrbios e reações imunológicas. Elas são capazes de provocar diabetes, doença celíaca, reumatismo, artrite, nefrite, infertilidade, Para se ter uma noção, o feijão é tão rico em lectinas que se for comido cru causa intoxicação, distensão abdominal, cólicas, vômitos e diarréia. A pesquisa do autor levanta inclusive a relação com Alzheimer, Parkinson, doenças autoimunes e descompassos por doenças metabólicas.

A soja, milho e trigo são cheios de lectinas, para se ter uma ideia, o gado que não evoluiu para comer grãos, sofre muito no processo digestivo da ração usada na criação intensiva pecuarista na modernidade. Como a engorda com grãos é significativamente grande os criadores investem no uso de antiácidos como carbonato de cálcio, uma vez que as vacas têm queimação e azia por comer milho. Metade da produção mundial de carbonato é usado na composição de ração que são base de milho e soja.

No entanto a ciência avançou e rastreou muitos dos alimentos que provocam inflamações ou descompassos metabólicos. 

O conceito de vida saudável do dr. Steven Grundy é o controle da ingestão de proteínas, um estudo seu com dr. Valter Longo do Instituto de Longevidade da Califórnia aponta para o consumo 0,37g por quilo corporal, ou seja, se você tem 68kg precisa de cerca de 24g de proteína. Controle da insulina através de amidos resistentes como batata doce ou inhame por exemplo. Eliminação total de alimentos inflamatórios, aqueles ricos em lectinas como soja, trigo, milho, aveia e toda sorte de grãos, assim como muitos outros alimentos, entre eles temos feijão, arroz, batata, pão, grão de bico, soja, amendoim, tomate, pimentão, laticínios do tipo caseína a1.

O cuidado com o intestino e o microbioma deve ser a prioridade de quem busca saúde e longevidade, uma vez que grande parte das patologias estão associadas a um intestino doente, permeável e incapaz de assimilar com sucesso aquilo que comemos.  

Dr. Gundry é um respeitado cirurgião cardíaco e pesquisador, formato com honras em Yale. Seu livro é um bestseller do new york times e suas ideias confrontam muito do que a nutrição e medicina em grande escala defendem como saudável. O autor trabalha cada uma das teses com pesquisa científica, testes laboratoriais, como também com o histórico de milhares de pacientes que tratou ao longo da última década e que fizeram uso da dieta do paradoxo vegetal no dia a dia.

Lucas Conchetto - 2020